Zé Laurentino:
Natural do Sítio Antas, Puxinanã/PB. Caririzeiro, de orígem rural, começou fazer versos aos 12 anos de idade.
Estudou no Ginásio Comercial “Plínio Lemos”, onde demonstrou sua
inclinação de líder, exercendo a atividade de representante de classe e
presidente do Grêmio Estudantil. Foi eleito vereador em 1972, sendo o
segundo vereador mais votado. Nos palanques recitava, arrancando
aplausos do público com um dos seus primeiros poemas: “Retorno à Casa
Paterna. Já exerceu a função de Presidente da Casa do Poeta Repentista
de Campina Grande (Casa do Cantador) por mais de uma vez.
Foi desenvolvendo sua criação poética e não parou mais. De inteligência
privilegiada o poeta Zé Laurentino coloca-a serviço do seu povo, fazendo
rir e tirando lições do acontecer cotidiano caipira.
É como Amazan, seu contemporâneo e sucessor, prende a atenção do público
quando está declamando suas poesias matutas, cascateadas de caboclo
humor. Quem tem “competência se estabelece” e estes dois poetas, são
prova disso. Sentaram praça na “poesia matuta” nordestina, sendo ambos
seus melhores representantes da atualidade.
A Zé Laurentino é a encarnação do interior nordestino, este sentir rústico, forte, telúrico e pândego ao mesmo tempo.
Autor das seguintes obras:
Sertão, humor e Poesia [5 edições/1990]; Meus Versos Feitos na
Roça;Carta de Matuto; Na Cadeira do Dentista; Poesia do Sertão; Dois
Poetas Dois Cantares [Parceria Edvaldo Perico]; A Grande História de
Amor de Edmundo e Maria (Cordel); Poemas, Prosas e Glosas [1988]. (maria
do socorro cardoso xavier)
O Matuto e o Doutor
(poesia matuta)
Zé Laurentino*
Douto não sou rico não
Mas vivo desapertado
Tenho uma casa de aipende
Vinte cabeça de gado
Uns quatro burro de caiga
E um cavalo manga laiga
Prumode eu andá montado.
Tenho uma roça bonita
De uveia tenho rebanho
Tenho um açude cheinho
Só mecê vendo o tamanho
Onde eu dou água a meu gado
E quando o calo ta danado
Serve mode eu toma banho.
Tenho um casa de menino
Uma mulé de verdade
Tenho um rádio falado
Que eu comprei na cidade
E uma viola de pinho
Onde toco bem cedinho
Mode espantá a sodade.
Um boi, um cutivador,
Vinte quadro de raiz,
E tá todinho cercado
A cerca fui eu quem fiz
Bode p’ru riba não sarta
Mais com tudo ainda farta
Uma coisa preu ser feliz.
Pode acreditá douto
Eu vivo sentindo fome
Mas não é fome de comida
Lá em casa a gente come
Tem dinheiro na gaveta
Eu sinto fome é das letra
Eu quero assiná meu nome.
P’ra eu não mandá lê carta
Pelos fí de seu Honoro
Pruquê as veis é segredo
E ele espaia o falatoro
Descubrindo os meu segredo
Pra eu não suja mais os dedo
Nos tinteiro dos cartoro.
P’ra não anda preguntando
Os carro pra donde vão
P’ra quando eu fô p’ra os banco
Não leva pricuração
Quero meu nome assina
Prumode eu também vota
Nos dia de eleição.
Me ensine lê seu douto
Eu peço pru caridade
Voimicê que é sabido
Que mora aqui na cidade
Me ensine a lê e conta
Prumode eu completa
A minha felicidade.
Doutor:
Caboclo eu não te ensino
Mas te aconselho, afinal
Quer aprender a ler?
Carta, bilhete, jornal?
Ler, escrever e contar
Pois vais te matricular
Num dos postos do Mobral.
Lá tu irás encontrar
Professora competente
E que no mundo dos livros
Vai clarear tua mente
Saber é algo profundo
Tu irás ver este mundo
Com uma visão diferente.
Vais caboclo nordestino
Da bravura és o perfil
A escola te espera
Com teu aspecto gentil
Ponha os livros nas mãos
Vais ajudar teus irmãos
A educar o BRASIL.
Matuto:
Muito obrigado douto
Pelo conseio, o afeto,
Vô convida a mulé,
Meus fios tomém meus neto
Não vô mais sê imbeci
E breve eu grito ao Brasí
Não sô mais anarfabeto!
Vô hoje mermo p’ra iscola
Com o livro, caderno e giz
Pois estudano eu tomem
Ajudo ao meu país
Depois que eu aprende a lê
Aí eu posso dize
Sô um caboco feliz!!!
Fonte:usinadeletras.com.br
postado por tony josé sexta-feira,21 de setembro de 2012
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
0 Assis Chateaubriand
Francisco
de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo nasceu em Umbuzeiro, Paraíba,
no dia 4 de outubro de 1892, filho do bacharel em Direito, José
Chateaubriand Bandeira de Melo e Carmem Chateaubriand Bandeira de Melo.
É
interessante esclarecer que Chateaubriand é prenome e não sobrenome de
família. Seu avô paterno, Francisco Aprígio de Vasconcelos Brandão,
entusiasmado com as obras do escritor francês François Chateaubriand,
registrou os filhos com o prenome Chateaubriand.
Assis
Chateaubriand teve uma infância difícil, marcada por privações e
problemas psicológicos devido a uma gagueira incontrolável e uma grande
timidez. Foi uma criança magra, gaga e feia, sem a vitalidade dos outros
três irmãos Ganot, Jorge e Osvaldo.
Seu
pai foi morar em Belém do Pará, deixando-o aos cuidados do avô materno,
Urbano Gondim, que morava em Timbaúba, Pernambuco, onde tinha
propriedades. A experiência foi positiva. Chateaubriand melhorou da
gagueira e tornou-se menos tímido.
Aos
nove anos, voltou a morar com a família que havia retornado ao Recife,
mas ainda não sabia ler. Foi alfabetizado por um tio e dois amigos do
seu pai, Antônio Feliciano Guedes Gondim, Manoel Távora Cavalcanti e
Álvaro Rodrigues Santos, quando já tinha dez anos de idade. Antigos
exemplares do jornal Diario de Pernambuco serviram-lhe de cartilha.
No
final de 1903, morou um tempo com seu tio e padrinho Chateaubriand
Bandeira de Melo, em Campina Grande, Paraíba, onde foi submetido a um
programa intensivo de estudos para recuperar o tempo perdido.
Em novembro de 1904, retornou ao Recife e prestou exame no curso de admissão da Escola Naval. Fez o curso secundário no Ginásio Pernambucano e começou a estudar alemão com os frades do convento de São Francisco, tornando-se um leitor compulsivo.
Seu primeiro trabalho foi na Gazeta do Norte recortando classificados.
Em 1908, ingressou na Faculdade de Direito do Recife indo trabalhar na época como aprendiz de repórter no jornal A Pátria. Trabalhou também no Jornal do Recife, no Diario de Pernambuco e no Jornal Pequeno, no qual publicou a maior parte de suas reportagens no Recife.
Em 1913, aos 21 anos, bacharelou-se em Direito. Ao formar-se já era editor e redator-chefe do Diario de Pernambuco, que na época pertencia ao conselheiro Rosa e Silva e tinha como diretor Arthur Orlando.
Em
1915, tentando buscar novos horizontes, foi para o Rio de Janeiro,
então a capital do Brasil. Naquela cidade fez muitas amizades, inclusive
com pessoas influentes. Colaborou nos jornais A Época, Jornal do Commercio, Correio da Manhã, do Rio de Janeiro e também na edição vespertina d`O Estado de São Paulo.
Seu sonho era “adquirir um jornal, como primeiro elo de uma cadeia”.Para
conseguir o dinheiro, instalou uma banca de advocacia e com seu bom
relacionamento com pessoas importantes, conseguiu vários clientes e
ações.
Foi
consultor para leis de guerra no Ministério das Relações Exteriores, no
governo Nilo Peçanha, mas deixou o cargo para ser redator-chefe do Jornal do Brasil.
Em 1919, depois de deixar o Jornal do Brasil foi convidado para ser correspondente internacional na Europa, trabalhando para o Correio da Manhã, do Rio de Janeiro. Viajou pela Suíça, Inglaterra, França, Holanda, Itália e Alemanha, obtendo sucesso jornalístico e pessoal.
Em setembro de 1924, adquiriu O Jornal, do Rio de Janeiro, dando início à cadeia nacional de jornal, rádio e televisão dos Diários Associados, que iria revolucionar o jornalismo brasileiro, inovando a imprensa, modernizando equipes, processos e veículos.
Chatô,
como alguns o chamavam, tornou-se uma personalidade conhecida no Brasil
e no exterior, respeitado e temido pelos poderosos. Participou de todas
as grandes campanhas de opinião de seu tempo.
Em 1934, incorporou a sua cadeia o Diario de Pernambuco, o jornal mais antigo em circulação na América Latina, onde havia iniciado sua carreira de jornalista.
Além dos Diários Associados chegou a possuir dez fazendas agropecuárias e laboratórios farmacêuticos.
Além de empresário de sucesso, foi um incentivador da cultura e da arte brasileiras. Criou o Museu de Arte de São Paulo, o MASP e ocupou a cadeira nº 37, da Academia Brasileira de Letras.
No campo da política, elegeu-se senador pela Paraíba em 1951 e pelo Maranhão em 1955.
Em
1960, sofreu um derrame cerebral ficando totalmente paralítico. Mesmo
nessa situação viajou muito dentro e fora do País, mantendo-se informado
de tudo, dirigindo suas empresas e jornais.
Assis Chateaubriand morreu em São Paulo, no dia 6 de abril de 1968.
FONTE: Fundação Joaquim Nabuco
postado por Tony josé quarta-feira,19 de setembro de 2012
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
0 Carro de Boi
Sendo
originário da Idade da Pedra ou do período Neolítco, o carro de boi
surgiu no Brasil com os primeiros engenhos de açúcar, na época da
colonização portuguesa.
Foi
um dos primeiros instrumentos de trabalho, além do mais antigo e
principal veículo de transporte utilizado no País, principalmente nas
áreas rurais, por quase três séculos.
O carro é composto por duas rodas, um grade ou mesa de madeira e umeixo.
As rodas são feitas de madeira de boa qualidade, com um anel de ferro
de forma circular nas extremidades, para garantir maior resistência.
Primitivamente, o carro não era ferrado e as pessoas diziam que “o carro
andava na madeira”. A grade possui cerca de três metros de comprimento
por um e meio de largura, com duas peças mais resistentes de cada lado e
uma terceira no meio, mais comprida, destinada a atrelar o carro à canga,
uma peça, também de madeira, com mais ou menos um metro de comprimento,
contendo um corte anatômico para assentar bem no pescoço do boi, sendo
segura por uma correia de couro chamada de brocha. A grade é apoiada sobre um eixo. O ponto de apoio da grade sobre o eixo são duas peças de madeira chamadas cocão. O chiado ou cantiga característica do carro de boi é produzido pelo atrito do cocão sobre o eixo.
As
madeiras utilizadas na construção dos carros de boi tinham que ser
fortes, principalmente as das rodas. As mais usadas eram o pau d`arco, aaroeira, a sucupira, a carnaubeira.
O carro de boi pode ser puxado por uma, duas ou mais juntas ou parelhas. Cada junta possui dois bois, que trabalham um ao lado do outro, unidos pelacanga.
Nos terrenos mais planos e em trabalhos mais leves utiliza-se, normalmente, uma parelha e
nos mais pesados, desenvolvidos em terrenos mais acidentados, duas ou
mais, uma atrás da outra. As parelhas são conjugadas por uma corrente
que liga as cangas.
Nos
engenhos, durante o verão, época da moagem, o boi era atrelado ao carro
para transportar a cana e o açúcar e, no inverno, ao arado para
revolver e cavar a terra destinada ao plantio da cana-de-açúcar.
O condutor do carro que comanda os bois é chamado de carreiro.
Normalmente, utiliza uma vara fina, com mais ou menos três metros de
comprimento, contendo uma ponta de ferro para ferroar o animal,
castigando-o ou indicando a direção a ser seguida. Usa também um chapéu de couro, umpeitoral e um facão, colocado numa bainha de couro pendurado no cinto.
Os bois se acostumam de tal forma com o carreiro que, muitas vezes a um simples chamado dele, se dirigem vagarosamente e ficam parados próximo ao local onde são normalmente encangados. Batizados com nomes pitorescos, como Cara Preta, Presidente, Azulão, Lavareda, Malhado, Pachola, Curió, atendem pelo nome ao chamado do carreiro.
No início o linguajar do carreiro, elemento fundamental para a manobra dos carros de boi, não passava de sons gaguejados como “ôu!”... para parar os bois ou “êi!”... para fazê-los descer ladeiras. Evoluiu depois para frases e expressões tipo “Vamos embora!” e “Volta boi Azulão!” “Carrega boi Malhado!” O carreirodirigia-se ao animal específico que queria comandar, sendo seus gritos reconhecidos e atendidos.
Além
de ajudar no transporte de cana, açúcar e lenha nos engenhos, o carro
de boi servia para transportar mudanças e conduzir pessoas. Havia tambem
uma versão coberta. Foi utilizado como carruagem para a nobreza rural
brasileira; como transporte de bandas de música das cidades para o interior e vice-versa; para levar as famílias sertanejas às festas de Natal e Ano Novo,
quando eram todos enfeitados para a missão e, ainda, nas campanhas
políticas, servindo de elemento de aproximação entre eleitores e
candidatos.
Nos
anos de 1939 a 1945, durante a Segunda Guerra Mundial, devido à falta
combustível para caminhões e automóveis, o carro de boi voltou a
aparecer, por algum tempo em certas regiões do País ajudando a
transportar cargas e pessoas.
Atualmente,
em Goiás, é utilizado pelos romeiros que vão da cidade de Damolândia
para o Santuário do Divino Pai Eterno, no município de Trindade (a cerca
de 74km de distância) para participar da Festa de Trindade, que
acontece no final do mês de junho e início de julho. Os carros são
enfeitados e participam de um desfile que é muito concorrido e apreciado
pelos participantes da festa.
Na
história do Brasil, o carro de boi aparece na Colônia, no Império, na
República, na Revolução de 1930, no Estado Novo. Pode apresentar
variações de “modelos” e nomes: carro, carroça ou carreta, como no Rio
Grande do Sul, porém, nenhuma cidade, vila, povoação, fazenda, sítio, do
litoral ao sertão ignora a existência deste rústico e primitivo meio de
transporte, que ajudou a fazer a história do Brasil.
O carro de boi ronceiro
foi o veículo primeiro
no Nordeste do Brasil!
O carro de boi, coberto
de ganga*, toda florada
Levava em dia de festas
Pela soalheira estrada,
pela sombria floresta,
Sinhazinhas e Sinhás!...
E que cantiga dolente
para a alma dessa gente,
não tinha o carro de boi?
Hoje se um automóvel,
passa veloz, fonfonando,
deixa a saudade acordando
do tempo que já se foi...
Do carro de boi coberto
de ganga toda florada...
As pálidas sinhazinhas
transformaram-se em “granfinas”...
............................................
Desses carros, restam ruínas
Na bagaceira do engenho...
João Rogério,
pseudônimo do poeta pernambucano Regis Velho.
FONTE: Fundação Joaquim Nabuco
postado por tony josé quarta-feira,12 de setembro de 2012
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
0 Antonio Nóbrega
Antonio Carlos Nóbrega é violinista, cantor,
dançarino e ator. Nasceu no Recife, no dia 2 de maio de 1952. Até os dez
anos de idade, viveu em várias cidades do interior de Pernambuco, pois
em decorrência da profissão de seu pai, médico sanitarista, era obrigado
a mudar-se periodicamente.
FONTE: Fundação Joaquim Nabuco
Foi aluno do Colégio Marista do Recife. Aos 12 anos, ingressou na Escola de Belas Artes do Recife, onde estudou violino clássico com o professor catalão chamado Luis Soler e canto lírico com Arlinda Rocha.
De formação clássica, Antonio Nóbrega iniciou sua carreira na Orquestra
de Câmara da Paraíba, na capital João Pessoa, ali permanecendo até
final dos anos 1960. Na mesma época participou da Orquestra Sinfônica do
Recife, onde se apresentava também como solista.
Por essa época, Antonio Nóbrega embora de formação erudita, participava
de um conjunto de música popular com suas irmãs e, de vez em quando,
compunha músicas que apresentava com elas, no Recife, na época dos
festivais da televisão.
Em 1971, foi convidado pelo escritor Ariano Suassuna
para integrar o Quinteto Armorial na qualidade de violinista, quando
gravou então quatro discos e excursionou pelo mundo divulgando a música
tradicional nordestina.
Daí em diante, sua
carreira deslanchou. Passou a manter contato mais estreito com todas as
expressões da cultura popular, como os brincantes de caboclinho, de cavalo-marinho
e outras que se tornaram objeto de suas pesquisas. Revelava-se então um
artista multidisciplinar, pois além de conseguir fazer uma mixagem
entre a arte erudita e a arte popular era capaz de cantar, dançar, tocar
bateria, rabeca, violão e ter habilidades circenses.
Em 1976, dirigiu seu primeiro espetáculo intitulado A Bandeira do Divino que estreou no Recife e, depois, A arte da cantoria,
espetáculo que participou do Primeiro Festival Internacional de Teatro,
em São Paulo, promovido por Ruth Escobar. Em 1983, foi para São Paulo
com o espetáculo Maracatu Misterioso, um solo que contava com a
participação de sua esposa Rosane (no papel de contra-regra e, ao mesmo
tempo, atuando no espetáculo).
Em São
Paulo, Antonio Nóbrega deu início a outra fase da sua carreira
artística. Foi um dos fundadores do Departamento de Artes Corporais da
Universidade de Campinas (Unicamp) e também do Circo Brincante de São
Paulo.
Em 1989, criou o espetáculo O Reino do Meio-Dia, seguido por Brincantes e Segundas Histórias.
Esses dois espetáculos foram estrelados por seu personagem Tonheta que
nasceu de uma tipologia popular, uma espécie de colcha de retalhos de
diversos tipos comuns em praças e ruas do Brasil. Entre os grandes
espetáculos realizados no Rio de Janeiro e em São Paulo, destaca-se Figural,
em 1990. Nesse espetáculo, Nóbrega, sozinho no palco, tem um desempenho
admirável, com mudança de roupas e de máscaras para fazer ricas e
variadas demonstrações da cultura popular brasileira e mundial. Em 1996,
criou o espetáculo Na Pancada do Ganzá (baseado na viagem etnográfico-musical de Mário de Andrade pelo Brasil). Na sequência criou Madeira que cupim não rói. Esses dois shows foram lançados em CDs pelo Estúdio Eldorado.
Mantém em São Paulo a Escola e Teatro Brincante, um centro cultural que
promove eventos e cursos ligados à dança, música e arte circense. Entre
os prêmios recebidos pode-se destacar o Troféu Mambembe, pelo conjunto
de sua obra; o Prêmio O Globo, pelo melhor show do ano; além do Prêmio
Sharp, pelo melhor CD, Na pancada do Ganzá; e o Prêmio Apca de Projeto e
Pesquisa Musical do Ano.
O espetáculo 9
de frevereiro (frevo + fevereiro), que é uma homenagem ao carnaval de
Pernambuco, ficou em cartaz, em São Paulo, até 12 de novembro de 2006,
para, em seguida, ser exibido no Rio de Janeiro. Esse espetáculo
apresenta o frevo nas suas várias formas de ser tocado: executado por
orquestra de sopro, por conjunto regional, por violino, por instrumentos
de percussão ente outros e diversas formas de ser dançado: por um só
dançarino (Nóbrega) em passos estilizados de dança moderna, com vários
dançarinos em passos de frevo, com e sem sombrinha e até com todo o
público, em ciranda de frevo.
O espetáculo também apresenta um momento para ensinar mais sobre o
frevo. A orquestra explica as modalidades e costumes da dança e Antonio
Nóbrega ensina uma pessoa da platéia a fazer os passos.
Segundo Coelho e Falcão (1995) Antonio Nóbrega é um desaguadouro de
múltiplas vertentes, entre elas, as das criações do folclore, das
histórias picantes, da literatura de cordel, do circo mambembe, das folias carnavalescas e das mais variadas manifestações
FONTE: Fundação Joaquim Nabuco
postado por tony josé sábado,8 de setembro de 2012
segunda-feira, 20 de agosto de 2012
0 Expressões populares
Veja também
a Atividade Pedagógica Expressões Populares!
[...] a vida não me chegava
pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do
povo
Porque ele é que fala gostoso o português do
Brasil...
Manuel Bandeira, Evocação do
Recife
A pesquisa, o registro e a reunião
de vocábulos e expressões populares, principalmente nas regiões Norte e Nordeste
do Brasil, foi sempre uma preocupação para pesquisadores e folcloristas
como Alfredo
de Carvalho, Pereira
da Costa, Luís
da Câmara Cascudo e Mário
Souto Maior, entre outros.
O povo é que
faz a língua, adicionando termos e expressões. É importante salientar que a
maioria das expressões populares existentes no português falado no Brasil, tem
origem no Norte e Nordeste, onde a língua falada e escrita, nesse idioma, foi
mais desenvolvida por causa do processo de colonização.
Por ser um
país de proporções geográficas enormes, o Brasil possui muitas expressões
lingüísticas regionais: o linguajar gaúcho, com influências das suas fronteiras;
a influência portuguesa, no linguajar nortista; o modo do nordestino se
expressar; a gíria carioca; expressões típicas de Minas Gerais e São Paulo.
Hoje, com a tecnologia eletrônica e as facilidades na comunicação entre as
pessoas, as expressões populares “viajam” pelo território nacional, tornando-se
mais conhecidas. Até as novelas de televisão as utilizam.
Algumas expressões populares
típicas do Nordeste:
a torto e a
direito-
indiscriminadamente;
abestado – bobo, abestalhado;
aboletar-se – instalar-se;
acocho –aperto, arrocho;
amofinado – aborrecido, infeliz;
aperreado – nervoso, preocupado;
arretado – irritado ou então algo muito
bom;
assim ou assado
– de uma maneira
ou de outra;
assobiar e chupar
cana- fazer duas
coisas ao mesmo tempo;
atanazar – aborrecer,
importunar;
atirar pedra em casa de
marimbondo- mexer com quem está quieto e se
arriscar;
bagunçar o coreto
– anarquizar,
cometer desordem;
balela – boato, conversa
fiada;
bater o facho – morrer;
berloque – pingente, enfeite;
birinaite – bebida
alcoólica;
bisaco – saco, sacola;
botar as barbas de
molho – tomar as
devidas precauções;
brocoió – medíocre, caipira;
bugigangas – coisas sem valor;
cabreiro – desconfiado;
cachete – comprimidos, pílulas;
cafua – depósito, lugar
pequeno;
cafundó – lugar muito longe;
cascavilhar – procurar, investigar;
chamaril – coisa para chamar a
atenção;
chinfrim – coisa ordinária;
cutucar o cão com vara curta
– mexer com quem
está quieto e se arriscar;
deforete – tomar uma brisa, ao ar
livre;
degringolar – desordenar, desorganizar, algo que
dar errado;
derna – desde
destambocar – tirar pedaço;
destrambelhada – desajustada metal;
empeiticar – importunar;
empiriquitado – enfeitado;
encangado – junto, pregado;
espoletado – danado da vida, com
raiva;
estrambólico – extravagante,
esquisito;
faniquito – desmaio, chilique;
fiofó – traseiro;
fuleiro – sem muito valor,
ordinário;
fulustreco – fulano;
fuzuê – barulho, confusão;
gaitada – risada estridente,
gargalhada;
gastura – incômodo,
mal-estar;
goga – contar vantagem,
vaidade;
guenzo – magro, esquelético;
inhaca – mau cheiro, catinga,
fedor;
inté – até logo;
jururu – triste, pensativa;
labrugento ou lambugento – serviço
malfeito;
lambança – desordem, barulho;
levar gato por lebre
– ser enganado,
logrado;
levar desaforo pra casa
– acovardar-se,
não reagir;
macambúzio – tristonho, pensativo;
malamanhado – desarrumado;
manzanza – preguiça, demora;
mundiça – gente sem educação;
nadica – nada;
nopró – indivíduo difícil;
nos trinques – nos
conformes;
oião – curioso, enxerido;
onde o diabo perdeu as botas
– lugar ermo,
distante;
pantim – exageros, espantos;
peba – coisa ordinária;
peitica – insistência
incômoda;
pendenga – assunto por acabar;
penduricalho – enfeite;
pé-rapado – pobretão;
pinicar – beliscar;
pinóia – expressão de
aborrecimento;
piripaque – passar mal;
potoca – mentira;
rabiçaca – sacudidela,
movimento;
salceiro – barulho, confusão;
samboque – pedaço;
sorumbático – tristonho, pensativo;
sustança – força, vigor;
trepeça – algo que não serve pra
nada;
virar defundo – morrer;
virar o copo – ingerir bebida
alcoólica;
Fonte:fundaj.gov.br
postado por tony josé segunda-feira,20 de agosto de 2012
|
domingo, 19 de agosto de 2012
0 Canhoto da Paraíba
O
músico e compositor Francisco Soares de Araújo, conhecido como Canhoto
da Paraíba, nasceu de uma família de músicos – avô clarinetista, o pai
tocava violão, os irmãos (nove) revezavam-se entre outros instrumentos –
aos dezenove dias do mês de maio de 1928, na cidade de Princesa Isabel,
sertão da Paraíba.
Canhoto da Paraíba é considerado por expoentes musicais brasileiros – Pixinguinha, Luperce Miranda, Dilermando Reis, Jacob do Bandolim, Radamés Gnatalli, Paulinho da Viola, entre outros – um violonista de primeira grandeza e esse reconhecimento deve-se ao seu talento e à sua técnica de tocar o violão num estilo contrário ao da escola de violão convencional: do lado esquerdo, sem precisar inverter as cordas. Aliás, ele adotou essa técnica quando tinha 12 anos. O instrumento era compartilhado com os irmãos e, por isso, ele não podia transformá-lo num violão que somente os canhotos pudessem dedilhar. Desta forma, observava seu pai tocando e ia aprendendo.
O curioso é que para escrever ele utiliza a mão direita; para chutar bola, o pé direito, mas para realizar qualquer serviço utiliza a mão esquerda, inclusive para tocar violão, cavaquinho e bandolim.
Sua trajetória musical iniciou-se em 1948, quando viajou para o Recife para participar de um programa na Rádio Clube de Pernambuco. Em 1953, assinou contrato com uma rádio da Paraíba. Nessa época, já havia formado um conjunto musical. Em 1958, mudou-se para o Recife e, no ano seguinte, numa excursão de músicos nordestinos, viajou para o Rio de Janeiro. Lá, ele participou de um sarau na famosa casa de Jacob do Bandolim, onde estava presente a nata do choro carioca. Canhoto da Paraíba tocou violão magistralmente e despertou o entusiasmo e a admiração de todos.
Autor de mais de 80 canções, Canhoto da Paraíba já se apresentou em shows com grandes nomes da música popular brasileira e gravou alguns discos:Único Amor (1968) e Um violão direito nas mãos do Canhoto (1974), que saíram pelo selo da extinta Rozemblit; Canhoto da Paraíba com mais de mil (também conhecido como Violão brasileiro tocado pelo avesso) produzido por Paulinho da Viola para Discos Marcus Pereira; Fantasia nordestina volume dois(1990), produção independente de Geraldino Magalhães e Lula Queiroga;Pisando na brasa (1990), último trabalho solo, gravado pela Kuarup; e, em 1993, sai o CD Instrumental no CCBB: Canhoto da Paraíba e Zimbo Trio, pelo selo Tom Brasil.
Em 1998, Canhoto da Paraíba sofreu uma isquemia cerebral que paralisou o braço esquerdo e o impede de tocar até hoje. No mês de maio deste mesmo ano, sabedores do seu estado grave, em sua homenagem e para ajudá-lo a cobrir as despesas médicas e de tratamento intensivo, vários dos grandes nomes do chorinho e do samba realizaram um show beneficente no Teatro Guararapes, Recife.
Canhoto da Paraíba está no Recife desde 1958 e, atualmente, mora com as filhas, fruto de dois casamentos, no bairro de Maranguape I, cidade de Paulista, Pernambuco.
Francisco Soares de Araújo, o Canhoto da Paraíba, foi um dos contemplados como Patrimônio Vivo de Pernambuco através da Lei estadual nº 12.196 de 2 de maio de 2002.
Faleceu na cidade do Recife, no dia 24 de abril de 2008.
FONTE: fundaj.gov.br
postado por tony josé Domingo,19 de agosto de 2012
postado por tony josé Domingo,19 de agosto de 2012
postado por tony josé Domingo,19 de agosto de 2012
0 Antônio Silvino

Manoel
Batista de Morais nasceu no dia 2 de novembro de 1875, em Afogados da
Ingazeira, uma pequena cidade situada às margens do rio Pajeú das
Flores, sertão do Estado de Pernambuco. Era filho de Francisco Batista
de Morais e de Balbina Pereira de Morais. Na juventude, ficou conhecido como Batistinha (ou Nezinho). Seus dois irmãos eram Zeferino e Francisco.
Batistinha possuía um tio chamado Silvino Aires Cavalcanti de Albuquerque que, após ter brigado com os partidários do General Dantas Barreto (governador de Pernambuco), decidira organizar um bando e, desde então, vivia espalhando o terror pelos sertões adentro.
Desse grupo, faziam parte: Luís Mansidão e o seu
irmão, Isidoro, Chico Lima, João Duda, Antônio Piúta e, posteriormente,
os seus sobrinhos Zeferino e Manoel Batista de Morais (Batistinha).
Silvino
Aires vivia fugindo do cerco da polícia, mas foi preso enquanto dormia,
pelo Capitão Abílio Novais, perto de Samambaia, distrito de
Custódia, em Pernambuco. Com a prisão do tio e bandoleiro, Batistinha
assumiu o comando do cangaço, mudou o seu primeiro nome para Antônio (não se sabe, até hoje, o motivo) e, o segundo, para Silvino, em homenagem ao familiar e ex-chefe que tanto admirava.
A partir daí, passou a ser conhecido com o nome de guerra de Antônio Silvino e apelido de "Rifle de Ouro". Um pouco antes de Lampião,
ele representou o mais famoso chefe de cangaço, substituindo
cangaceiros célebres tais como Jesuíno Brilhante, Adolfo Meia-Noite,
Preto, Moita Brava, o tio - Silvino Aires - e o próprio pai - Francisco
Batista de Morais (conhecido como Batistão).
Batistinha
havia entrado no cangaço com o seu irmão, Zeferino, para vingar a morte
do pai, Batistão do Pajeú, que havia tombado morto em um dos combates
com a polícia. Batistão era um homem provocador, um bandoleiro, bastante
marcado pela polícia e autor de vários homicídios. Certa vez, ousou
entrar em Afogados da Ingazeira, em um dia movimentado de feira. Daí, o
chefe político local, coronel Luís Antônio Chaves Campos, contratou um
matador profissional (Desidério Ramos, que, como o coronel, também era
desafeto de Batistão), e este liquida o cangaceiro com um tiro de
bacamarte. O corpo de Batistão permaneceu inerte, em uma rua próxima à
feira. Era o ano de 1896.
Desidério,
gozando da cobertura do coronel e chefe político da região, permaneceu
impune e bem protegido no sertão. Jamais demonstrou possuir o menor
temor de Antônio Silvino, a despeito de o cangaceiro amedrontar a todos.
Sendo assim, depois de muito chorar a perda do genitor, os filhos de
Batistão juraram vingar a sua morte, roubando, assaltando e matando
todos aqueles que colaboraram para tal.
Algumas
pessoas acreditavam, inclusive, que Antônio Silvino não possuía "maus
instintos", que não cometia violências à toa, do tipo assaltar pessoas,
estabelecimentos, povoados e cidades sem haver um motivo justo. Os
integrantes do seu bando só se vingavam daqueles que lhes armavam
emboscadas, dos que os denunciavam à polícia, das volantes que os
perseguiam. Quando muito, se não agiam exatamente dentro da lei, isto
era justificado, segundo eles, pela necessidade de angariar elementos
básicos para a sobrevivência do bando: comida, dinheiro, roupa, armamentos.
Outras
pessoas afirmavam, contudo, que Antônio Silvino vivia espalhando o
terror nos municípios das Zonas da Mata e Agreste de Pernambuco, e nos
sertões deste Estado e da Paraíba. Sobre os feitos e a valentia daquele
cangaceiro, o cantador popular Leandro Gomes de Barros escreveu:
Onde eu estou não se rouba
Nem se fala em vida alheia,
Porque na minha justiça
Não vai ninguém pra cadeia:
Paga logo o que tem feito
Com o sangue da própria veia.
Quando
Silvino Aires morreu, vários indivíduos perigosos entraram em seu bando
e começaram a espalhar o terror por toda a parte. Foram eles: Cavalo do
Cão, Relâmpago, Nevoeiro, Bacurau, Cobra Verde, Azulão, Cocada, Gato
Brabo, Rio Preto, Pilão Deitado, Barra Nova, Cossaco, entre outros.
Antônio Silvino, como chefe, passou a usar a farda de coronel,
apresentando-se com cartucheiras, punhal na cintura, bornais e um rifle
na mão e, por questão de poder e vaidade, exigia que todos o chamassem
de "capitão".
A esse respeito, Mauro Mota registrou
um episódio vivenciado por Antônio Silvino. Ao invadir uma cidade na
Paraíba, o famoso cangaceiro se dirigiu à casa de um delator e disse, em
público, que ia matá-lo. A esposa da vítima, desesperada, pediu-lhe,
então: "Capitão, não mate o meu marido. Tenha pena de uma pobre mulher e
de crianças que vão ficar órfãs."
Ao
que o cangaceiro lhe respondeu: "[...] Antônio Silvino não sabe negar
nada a uma mulher aflita." [...] "Perdôo-lhe a vida, mas, para não ficar
sem castigo, vou mandar dar-lhe uma pisa."
Ao
que a mulher voltou a lhe solicitar: "Capitão, se é para humilhar meu
marido, o senhor me desculpe: em um homem não se dá! Mande logo matá-lo,
que é melhor!
Naquele
momento, vendo esvair-se a oportunidade de escapar da morte, o marido
delator interrompeu o diálogo dos dois e exclamou: "Não se meta, mulher,
que o capitão sabe o que faz!"
Um
outro episódio ocorrido foi narrado pelo escritor e sertanejo Ulisses
Lins. Certa vez, Antônio Silvino passou pela Fazenda Pantaleão, uma
propriedade de Albuquerque Né, o avô de Etelvino Lins. Como o cangaceiro não o conhecia, apenas cumprimentou-lhe à distância, tirando o seu chapéu.
Quando
foi informado de quem se tratava, no entanto, Antônio Silvino voltou
para pedir-lhe desculpas, humildemente, por ter passado em suas terras
armado, justificando isto pela vida de riscos que levava, fugindo sempre
dos inimigos e da polícia. Dessa forma, mesmo considerando o crime como
uma banalidade, o cangaceiro sabia respeitar a autoridade e a lei dos
coronéis-fazendeiros, em verdade, os mais poderosos de todos.
Ele
chegou a ser chamado de "bandido cavalheiro". Mesmo não perdoando aos
inimigos, ele adquiriu fama por proteger as pessoas simples e humildes:
as mulheres, as crianças, os doentes e os idosos. Um poeta popular
sertanejo, na época, sobre ele escreveu:
Antônio Silvino é
Cangaceiro do sertão,
Mas não ataca a pobreza,
Antes lhe dá proteção;
Mas tem orgulho em matar
Oficial de galão.
Um outro poeta popular deixou o seguinte cordel, como se fosse o próprio Antônio Silvino falando:
Já ensinei aos meus cabras
A comer de mês em mês,
Beber água por semestre,
Dormir no ano uma vez,
Atirar em um soldado
E derrubar dezesseis.
O
governador de Pernambuco, general Dantas Barreto, frente aos imensos
prejuízos causados pelos cangaceiros no interior do Estado, decidiu
decretar a mobilização da polícia. Foram despachadas para o sertão,
então, inúmeras forças volantes, com o intuito de combater o bando de
Antônio Silvino.
O
delegado do município de Taquaritinga, alferes Teófanes Torres,
comandante de uma das forças volantes, desconfiou que o famoso
cangaceiro estivesse escondido na fazenda de Joaquim Pedro. E quando
empreendeu uma busca dentro da casa, percebeu que um grande carneiro
tinha sido abatido e estava sendo preparado na cozinha do fazendeiro.
A
partir daí, o alferes ameaçou fuzilar o dono da propriedade, caso ele
não revelasse, de imediato, onde se encontrava Antônio Silvino. Uma das
filhas de Joaquim Pedro, apavorada com a situação, implorou: "diga a
verdade, papai!" O fazendeiro terminou falando, então, que o bando se
encontrava bem perto dali, à beira de um riacho; e o delegado ordenou
que a tropa seguisse até o local e pegasse o cangaceiro vivo ou morto.
O
caminho indicado, no meio da caatinga, em Lagoa da Lage, Santa Maria,
Pernambuco, era um entranhado de espinhos, mororós, xique-xiques,
facheiros e galhos secos de jurema, ferindo todos os que tentavam abrir a
picada. Mas, a despeito das dificuldades, no dia 28 de novembro de 1914
ocorreu o último encontro de Antônio Silvino com a polícia. No
tiroteio, muitos morreram e poucos conseguiram fugir. Já baleado e para
não ir preso, Joaquim Moura, o lugar-tenente do cangaceiro, se suicidou
com um tiro de rifle. O confronto durou cerca de um hora, o tempo que o
bando esgotou a munição das cartucheiras.
Percebeu-se,
de repente, que Antônio Silvino estava correndo cambaleante, como se
estivesse ferido. Em verdade, uma bala de fuzil havia atravessado o seu
pulmão direito, indo sair na região sub-axilar. Sangrando, ele conseguiu
chegar à residência de um amigo, pediu que chamassem a polícia e, na
presença desta assim falou: estou entregue! Tinha 39 anos de idade.
Ele
foi preso na mesma hora e levado para a Cadeia de Taquaritinga. Porém,
como estava muito ferido, teve de viajar a cavalo, dentro de uma rede,
por cerca de 40 quilômetros, até a estação ferroviária de Caruaru. O
destino final era a capital do Estado.
Como
recompensa ao heroísmo pela captura do "Mussolini sertanejo", o general
Dantas Barreto promoveu o alferes Teófanes a tenente; a alferes, o
segundo-sargento José Alvim; e, a cabo, todos os demais praças que
participaram do confronto com o bando.
Do município de Caruaru, Antônio Silvino foi transferido para a Casa de Detenção do Recife. Veio em um trem especial da Great Western, onde uma multidão o aguardava: todos queriam ver, de perto, o tão falado cangaceiro.
No
entanto, Antônio Silvino se encontrava abatido, em decorrência da
hemorragia que tivera, estava inquieto, com dificuldade respiratória, e
ardia em febre. Os médicos diagnosticaram pneumonia traumática e
aplicaram seis ventosas secas sobre o seu hemitorax direito.
Posteriormente, deram-lhe injeções de óleo canforado e estriquinina. O
doente ficou mais calmo, respirando melhor.
Antônio
Silvino se tornou o prisioneiro número 1122, da cela 35, do Raio Leste.
Por vários processos, pelos vinte anos de opção pela vida no cangaço,
foi condenado a 239 anos e 8 meses de prisão.
Na
cadeia, teve um comportamento exemplar e decidiu aprender a ler e
escrever, aproveitando as horas do dia para fazer algo útil. Nos
intervalos das aulas, fabricava abotoaduras, brincos e pequenos
artefatos de crina de cavalo, ganhando algum dinheiro com a venda desses
produtos.
Passou a ser objeto de estudos e pesquisas, principalmente de alunos da Faculdade de Direito do Recife. Entretanto, não gostava de recordar o seu passado.
Em certa ocasião, recebeu a visita de José Lins do Rego, um jovem advogado cujo desejo era o de se tornar um romancista. Outras vezes, foi procurado por Luís da Câmara Cascudo, Nilo Pereira, José Américo de Almeida, entre várias personalidades importantes. Quanto aos jornalistas, o ex-cangaceiro se recusou, sistematicamente, a recebê-los.
Antônio
Silvino passou vinte e três anos, 2 meses e 18 dias recluso. Mas, após
esse período, recebeu um indulto do Presidente Getúlio Vargas. Na época,
ele declarou:
Minha
vida todo mundo conhece. Vinte e três anos de reclusão alteraram o meu
destino. Mas, diga lá fora, que eu nunca roubei, nem desonrei ninguém,
e, se matei alguma pessoa, foi em defesa própria, evitando cair nas mãos
de inimigos.
Saiu feliz da vida da prisão, como um passarinho que escapou da gaiola. Tinha 62 anos de idade.
Liberto, ele decidiu andar pela rua Nova, olhar as vitrines, ir até à Sorveteria Pilar, conhecer a praia de Boa Viagem, admirar Recife e Olinda. Chegou, inclusive, a conhecer o Rio de Janeiro e o Presidente Vargas.
Desejando
se estabelecer no interior do Estado, Antônio Silvino resolveu mandar
uma carta para José Américo de Almeida, um político de renome na
Paraíba, solicitando-lhe um emprego, por conta dos "seus serviços prestados ao Nordeste". Mas, o escritor e político jamais lhe respondeu a carta.
O
ex-detento viaja para o sertão da Paraíba. Ficou vagando de cidade em
cidade, se hospedando nas casas de alguns amigos antigos, porém jamais
obteve recursos financeiros para comprar a tão sonhada pequena
propriedade e dedicar-se de corpo e alma à agricultura.
Terminou
indo viver com uma prima, Teodulina Alves Cavalcanti, que morava com o
seu esposo em uma casa modesta na rua Arrojado Lisboa, em Campina
Grande, na Paraíba.
Considerando-se
que Antônio Silvino permaneceu vinte anos arriscando a vida e
enfrentando o perigo no cotidiano, é possível afirmar que o
ex-cangaceiro teve uma vida longa. Lampião, por exemplo, foi morto em
Sergipe no ano de 1938, aos 41 anos de idade. Na ocasião de sua morte,
Antônio Silvino estava cumprindo a sua pena e, quando indagado acerca do
ocorrido, ele declarou:
Não
me causou admiração porque a vida é incerta, mas a morte é certa. Não
me interessam mais esses assuntos de cangaço, pois sou um homem
regenerado. Só quero, agora, descanso na minha velhice.
Do
perigoso cangaceiro que fora no passado, ele era hoje um homem idoso,
mas que possuía uma mente esclarecida e respondia bem à todas as
perguntas que lhe faziam. Dele, foi esse depoimento:
Nunca
tive medo de morrer em pé, quando campeava pelo Nordeste, mas, agora,
deitado, não quero morrer, se bem que não tenha medo do inferno, pois se
para lá for, disputarei um lugar de chefe, um posto de comando
qualquer. Pro céu é que eu não quero ir, pois, ao que me consta, lá não
há campo pra luta, nem lugar para Capitão de mato como sempre fui. Quero
viver mais um pouco, mesmo com esta agonia que estou sentindo, com esta
falta de ar, com esta falta de conforto.
E acrescentou:
A
justiça dos homens me condenou. A justiça da Revolução de 30 me
absolveu, dando-me liberdade. A doença agora me prende e eu tenho que
aguardar o pronunciamento da justiça de Deus. É ela maior de que todas
as justiças da terra.
Antônio
Silvino teve oito filhos: José, Manoel, José Batista, José Morais,
Severino, Severina, Isaura e Damiana. Ele morreu na casa de sua prima
Teodulina, no dia 30 de julho de 1944. Ao lado de uma multidão de
curiosos, procurando vê-lo pela última vez, o ex-cangaceiro foi
enterrado no Cemitério de Campina Grande. Uma senhora idosa depositou
uma coroa de flores sobre a sua sepultura e, uma jovem, um cacho de
angélicas e cravos.
Passados
dois anos e meio do seu falecimento, nenhum familiar apareceu para a
retirada dos ossos de Antônio Silvino. Sem alternativa, os coveiros
enterram os restos mortais em um outro lugar do cemitério. Hoje, não se
sabe mais aonde.
O
que sobrou do Capitão Antônio Silvino, do célebre Rifle de Ouro, se
perdeu, em meio a tantas outras ossadas que nunca foram reclamadas. A
sua fama, no entanto, registrada pelos poetas populares em literatura de
cordel e, por muitos intelectuais, em vários livros e periódicos,
permanece viva e intacta em todo o Brasil.
Recife, 14 de novembro de 2003.
(Texto atualizado em 14 de setembro de 2007).
FONTES CONSULTADAS:
BARBOSA, Severino. Antônio Silvino o rifle de ouro: vida, combates, prisão e morte do mais famoso cangaceiro do sertão. Recife: CEPE, 1997.
FERNANDES, Raul. Antônio Silvino no RN. Natal: CLIMA, 1990.
MELO, Frederico Pernambucano de. Quem foi Lampião. Recife/Zurich: Stahli, 1993.
MOURA, Severino Rodrigues de. Antônio Silvino. Revista de História Municipal, Recife, n. 7, p.139-142, ago. 1997.
PORTO, Costa. Os tempos da República Velha. Recife: Fundarpe, 1986. (Coleção pernambucana 2ª fase, v. 26). Edição conjunta de Os tempos de Barbosa Lima, Os tempos de Rosa e Silva, Os tempos de Dantas Barreto e Os tempos de Estácio Coimbra.
COMO CITAR ESTE TEXTO:
Fonte: VAINSENCHER, Semira Adler. Antônio Silvino. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar>. Acesso em: dia mês ano. Ex: 6 ago. 2009.
FONTE: fundaj.gov.br
postado por tony josé Domingo,19 de agosto de 2012







